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o fim da solidariedade



No início desta semana o Álvaro assinou com um cafuné de Pedro Mota Soares, um acordo com a Segurança Social, que dita que os auferintes do RSI e desempregados podem ser requisitados por câmaras, protecção civil e administração interna, para fazerem trabalho de limpeza e protecção das florestas. Isto a troco no caso dos beneficiários de RSI de um pagamento adicional de cerca de 420€ e no caso dos desempregados de uma majoração de 80€ ao seu subsídio (e quem não recebe subsídio?).

Basicamente o governo pretende matar dois coelhos de uma cajadada, pôr um lado arranjar funcionários públicos a custo reduzido (salário mínimo nacional ou menos no caso de quem receba subsídio de desemprego calculado com base no SMN) e sem ter de estabelecer qualquer vínculo laboral e por outro pôr os "parasitas, preguiçosos e indigentes" (usando as nomenclaturas liberais) a trabalhar. Se não quiserem aceitar estes trabalhos forçados então que se amanhem sem os subsídios e assim o estado poupa umas maquias...

Incrivelmente até agora não vi nenhum comentador quer de esquerda quer de direita a tecer uma opinião sobre este acordo que na minha opinião é de uma falta de ética gritante e de moralidade questionável.

Primeiro que tudo em relação aos desempregados estamos perante mais um ataque ideológico ao Estado Social, sem paralelo em qualquer país do mundo, mesmo os mais liberais e amados desta corrente neo-liberal que nos governa actualmente. O subsídio de desemprego não é uma ajuda do estado ao trabalhador, o subsídio de desemprego é um seguro social pago pelo próprio trabalhador ao longo da sua carreira contributiva à Segurança Social (dai o nome) e dai não poderem haver mais contrapartidas à sua atribuição além das regras que foram acordadas em sede do Código Contributivo.

Li em comentários ao artigo, que neste momento o dinheiro das contribuições não chegaria para cobrir as despesas da Segurança Social, o que não passa de uma mentira mal informada ou mal intencionada. Em Janeiro de 2012 o excedente da Segurança Social cifrou-se em 315 milhões de euros (o aumento esmagador do desemprego levou a uma quebra de 428 milhões de euros nesse excedente) o que significa que a Segurança Social continua e continuará a ser 100% financiada pelos trabalhadores (a não ser que a situação ainda seja mais agravada pelas políticas para lá do memorando que são apanágio deste governo). Infelizmente algumas pessoas confundem previsões de ruptura na sustentabilidade da Segurança Social a médio/longo prazo (caso nada seja feito para corrigir a situação) com a realidade do presente.

Por outro lado li quem afirmasse que as contribuições do trabalhador não pagavam nem metade dos subsídios que pode auferir. Esta é uma afirmação que demonstra acima de tudo iliteracia financeira, pois quando fazemos um seguro privado a uma casa também não pagamos em prémio o valor total da mesma. Os seguros são feitos partindo do princípio que a necessidade de reembolsos é limitada a uma percentagem pequena do total de segurados. No caso de uma casa apenas uma pequena percentagem de casas seguradas é alvo de incêndio/inundação ou outras catástrofe que requeira à seguradora o pagamento do valor segurado. Em termos de Segurança Social parte-se do principio que o desemprego é uma ocorrência limitada (não é suposto haver valores de 15% de desemprego numa economia ocidental moderna e democrática) e que a esmagadora maioria dos trabalhadores não irá accionar este seguro contribuindo assim para a cobertura dos subsídios necessários.

Assim sendo temos um governo que pretende colocar o dinheiro da Segurança Social ao serviço de funções do estado que devem ser cobertas por outros impostos. Sinceramente duvido da legalidade deste acordo no que toca aos desempregados e estou certo da imoralidade de colocar o "trabalho socialmente útil" como contrapartida a um subsídio que é direito legal e moral do trabalhador.

Já em relação aos usufruintes de RSI a questão entra mais no campo dos valores e ideais. Na minha opinião sendo um "subsídio solidário" não devem existir quaisquer contrapartidas à posteriori à sua atribuição, se a pessoa não tem rendimentos e cumpre todos os requisitos à sua atribuição então deve ter direito ao mesmo sem mais adendas ou vírgulas. A solidariedade supõe que se presta auxílio ao próximo sem esperar nada em troca, a solidariedade não é um empréstimo nem pode ter facturas escondidas.

Penso que se este governo é anti-solidário deveria acabar com o RSI e instaurar um empréstimo social, em que quem cair na desgraça e tiver de pedir ajuda ao Estado fica sujeito às regras de retribuição que o estado lhe aprouver definir. Ai sim, o beneficiário do empréstimo teria que aceitar qualquer trabalho ou forma de compensação que aceitasse no acto do seu pedido de auxílio.

Por fim, penso que a frase «os desempregados poderão recusar a proposta "caso se tratem de actividades não compatíveis com a sua capacidade física, qualificação ou experiência profissional», revela resquícios de um pensamento elitista e de diferenciação social de classes que remonta ao tempo do outro senhor. Se quisermos ser populistas podemos dizer que isto é a cláusula para que as "pessoas de bem" não sejam obrigadas a fazer desmatações e outros trabalhos pesados. Se quisermos mesmo ser excessivos podemos traçar um claro paralelo com o esclavagista que via os dentes e apalpava os músculos do escravo que ia comprar, para decidir se o comprava e para que trabalho o ia usar...

1 de maio


© Rogério Neves

Já muito foi, está a ser e será dito sobre a campanha de desconto de 50% que o Pingo Doce decidiu fazer no Dia do Trabalhador.

A mim nem me espanta muito o caos gerado numa altura em que, mesmo quem não passa pelas dificuldades do desemprego ou de um salário mínimo nacional, está num constante pânico devido à realidade de uma crise, mas mais gravemente a uma estratégia propagandista do actual governo, que tudo faz para culpabilizar os cidadãos pelo estado de coisas e para instigar um clima de medo, de forma a controlar as sublevações e a indignação social.

Nem de propósito Passo Coelho discursa na manhã deste 1º de Maio, avisando os portugueses para que eles se preparem para viver com um desemprego nunca antes visto. Este discurso negativista e desmotivador, visa claramente incutir nos trabalhadores, descontentes com a perca ou a ausência de direitos, um sentimento de resignação motivado pelo receio de perderem o trabalho e remunerações que ainda têm, numa altura em que o mercado de trabalho se encontra numa disfuncionalidade, de que ninguém nascido após os anos 70 do século passado se recorda.

Voltando ao Pingo Doce e sem falar de assuntos que terão de ser analisados pelas autoridades competentes (ASAE e Autoridade para as Condições do Trabalho), esta promoção decidida para o dia em que decorreu, é de um significado simbólico muito grave.

Além todas as pressões e chantagens, que foram denunciadas pelos sindicatos e trabalhadores, para negar o direito ao feriado a quem já tinha decidido que o iria gozer, o Pingo Doce decidiu criar um dia de inferno para os seus trabalhadores, o que para aqueles que não trabalharam de livre iniciativa, se tornou um duplo castigo.

Ou seja, no dia em que esta empresa deveria ter mostrado o respeito pelos seus trabalhadores, recompensando-os simbolicamente pelo esforço que contribui inegavelmente para os bons resultados económicos da mesma, o Pingo Doce decidiu-se pelo desrespeito pelo Dia do Trabalhador e tudo o que ele significa, negando o direito ao feriado comemorativo e, com requintes de maquiavelismo, castigar os seus trabalhadores com um dos piores dias de trabalho que estes têm memória.

Podem dizer-me que há que olhar com realismo (sendo que realismo é em muitas mentes, ter uma visão ideológica de direita) para o contexto em que vivemos, mas não podemos ignorar também todo o contexto simbólico destes eventos e aquilo que esse nos diz da estratégia político/empresarial que alguns alguns querem implementar no nosso país.

um pequeno pensamento

só para partilhar uma resposta pessoal ao assunto debatido nesta partilha de Facebook > https://www.facebook.com/pedromiguelfilipe/posts/194240597346360

"A ideia de que trabalhar que nem um cão a vida inteira é o pathos de um índivíduo rico é de uma ingenuidade e de uma mundividência tão idológica e programática...


A observação da realidade mostra-nos que nenhum rico deve a sua fortuna ao trabalho canino e constante, mas sim a diversos tipos de factores mais e menos honestos, mas que passam sempre pela criação de valor graças à colaboração e trabalho de muitas outras pessoas quer seja em regime realmente colaborativo ou em condições exploratórias.

Uma análise ainda mais aturada de dados concretos em termos de rácio colaboração/repartição de lucros permitir-te-ia perceber que a esmagadora maioria dos "ricos" (os verdadeiramente milionários ou bilionários) o é pois não distribuiu justamente o lucro das suas empresas pelos restantes intervenientes.

E nem vale a pena falar das fortunas construidas com mecanismos ficanceiro/bancários, através do expediente da usura e expoliação de patrimónios privados ou sociais...

Quando muito os ricos devem pagar exactamente a mesma carga fiscal que todos os outros membros da sociedade, se não mais, de forma a regular as acumulações indevidas."

a china como exemplo?



Pouca coisa me enoja e já vi muito, mas as imagens desta situação na China são de fazer sentir o coração no estômago.

Uma rapariga pequena é atropelada (é impossível à velocidade que ia não ter visto), a carrinha passa-lhe por cima com a roda, o condutor apercebe-se e para a carrinha para de seguida fingir que nada aconteceu e mais uma vez passar por cima da criança. Entretanto passam várias pessoas que fingem que não vêm o corpo da criança, mas o choque maior é quando percebemos que a criança está viva e a chorar (apesar de ter o corpo todo rebentado), segundos antes de outra carrinha passar novamente por cima e ainda mais pessoas fingirem que nada estão a ver!

Não há palavras para qualificar o completo esvaziamento ético da sociedade chinesa (nem moral mesmo que religiosa), que este vídeo faz questão de brutalmente nos lembrar. Uma sociedade em que o dinheiro é a medida de todas as coisas e onde não há nenhum respeito ou apreço pela vida humana.

Se a China já foi uma sociedade comunista, hoje não o é o extremo oposto, um aviso do que acontece quando deixamos o capitalismo à solta, numa sociedade com um governo totalitário e sem acesso à educação, informação e cultura.

Mais no site da BBC
http://www.bbc.co.uk/news/world-asia-pacific-15331773

algumas citações do estudo sobre a TSU

"Os impostos direitos representam cerca de 29.6%, menos 2.4 p.p. que nos países da área do euros e as contribuições sociais cerca de 26.6%, menos 4.9 p.p. que os países da área do euro. Relativamente às contribuições sociais dos empregadores contribuíram com 14.8%, menos 3.3 p.p. que nos países da área do euro."

"(...) na sequência do aumento da taxa do IVA, espera-se, no ano da implementação da medida, uma redução dos salários reais e do rendimento disponível real das famílias."

"(...) existe o risco, sobretudo no curto prazo, de os preços em alguns setores não se reduzirem, podendo acabar o benefício da redução dos custos por ser transferido para aumentos de margem de comercialização. Neste caso, o custo para a sociedade é elevado uma vez que se está a transferir poder de compra dos consumidores (em virtude do aumento dos impostos) para lucro dos produtores de bens não transacionáveis. Adicionalmente, uma redução generalizada da TSU não só tem um custo orçamental significativo, num contexto de elevada exigência em termos de consolidação orçamental, como pode ter efeitos dinâmicos perversos, na medida em que constitua um subsídio a empresas menos eficientes."

Nem é preciso dizer muito mais...

o jogo de culpas





O "Jogo de Culpas" é provavelmente das actividades humanas mais antigas que existem, desde sempre o ser humano tenta encontrar os responsáveis pelos seus infortúnios e dificuldades, sejam os deuses da natureza ou até um membro da comunidade.

Claro que encontrar responsabilidades é sempre importante, principalmente para se encontrarem soluções, o problema é quando a procura do responsável se torna o objectivo primordial, chegando mesmo a sobrepor-se à procura das soluções ou a impedir a sua implementação.

No caso dos poderes políticos este "jogo de culpas" é um dos maiores obstáculos para a resolução de muitos problemas locais e nacionais, ele é bem visível quando os diferentes departamentos de uma câmara ou pelouros de uma freguesia, esgrimem entre si a responsabilidade nos mais diversos assuntos, principalmente na ausência de uma legislação e normativas claras.

Mas também está patente no exercício da cidadania activa - principalmente porque na maioria dos casos a cidanania activa em Portugal é feita de movimentos de queixa ou maledicência - onde mesmo havendo vontade e capacidade de resolver os problemas da parte dos próprios cidadãos, essa resolução é sabotada pela maior paixão no "jogo de culpas". Parece haver mais vontade em apontar dedos aos responsáveis, que em resolver aquilo que está mal.

Obviamente os cidadãos não podem substituir-se às entidades competentes, mas muitas vezes há soluções que são mais fáceis de aplicar sem a burocracia que rege as mesmas.

Pessoalmente, se tiver uma solução nas minhas mãos, pouco me importa quem tinha responsabilidades de a ter resolvido o problema antes, o que importa no final de contas são as soluções... claro que depois dos problemas resolvidos, podem e devem haver consequências para quem tinhas as responsabilidades!

fazer o rescaldo



© REUTERS/Hugo Correia

Depois da ressaca das eleições, importa agora pensar bem sobre o que aconteceu e prepararmos-nos para os dois futuros, o futuro sofrimento na pele das "medidas que irão mais longe que a Troika" e o futuro que terá de ser uma oposição responsável no que diz respeito ao acordo firmado pelo país mas acérrima no que diz respeito às medidas liberalizadoras que ultrapassam esse acordo e entram na esfera das posições ideológicas e políticas.

No Domingo, infelizmente pude sondar em primeira mão o inevitável, pois tive o gosto de pela primeira vez fazer parte de uma mesa de voto como escrutinador... logo na abertura das urnas partilhei com os meus colegas de mesa, a minha aposta confirmada de uma abstenção superior a 35% aliás superada na realidade pelo número negro de 41%, numas eleições que foram das mais importantes desde o retomar da democracia.

Esta abstenção merece ser tema para desenvolver e pensar em artigo próprio, no entanto há um factor que se retira logo da mesma, que é o facto de os 50, 37% da direita, que se coligará para formar uma maioria absoluta, serem apenas relativos a 59% dos portugueses... em relação a 100% dos portugueses a direita junta apenas foi legitimada por 29.71% dos eleitores. Obviamente e ao contrário do que aos abstencionista seria conveniente, para justificar a sua falta de brio cívico e preguiça no assumir de ideais e valores, em democracia representativa apenas conta quem cumpre o dever do voto, por isso mesmo aquilo que fizeram na realidade foi autorizar a liberalização de Portugal.

Em relação aos que votaram, o Daniel Oliveira diz e muito bem que "(...) sabem no que votaram", o PSD foi claro, curto e grosso nesta campanha, disse ao que vinha e para onde ia e quem votou PSD não tem o direito de dizer daqui a uns meses/anos que foram enganados e que os políticos são todos iguais (quem votou CDS poderá eventualmente dizer que não sabia bem no que votou pois a campanha de Paulo Portas baseou-se no silêncio...). Se votaram sem se informar espero que aprendam uma lição sobre a responsabilidade do acto do voto e se votaram no PSD apenas porque estavam contra o PS de José Sócrates, aprenderão uma lição valiosa sobre o porquê de ser do contra não servir para a construção de nada positivo, ser do contra é apenas destruir.

Claro que como humanista romântico e propositadamente ingénuo, tenho fé que todos nós temos a capacidade de aprender lições com os nossos erros...

12 de março


© Nataniel Rosa


No passado dia 12 de Março não pude deixar de estar na manifestação da "Geração à Rasca", foi a primeira vez que me manifestei, exatamente porque foi a primeira manifestação apartidária (?) que se realizou desde que sou gente, sem instrumentalizações e agendas de terceiros que acabam por abafar a mensagem da precariedade e da exploração laboral em Portugal.

Dizem os media e quem já esteve noutras manifestações, que foi uma das maiores manifestações que o nosso país já viu e que apesar da ausência de organização, foi um exemplo de civismo. Sobre a primeira observação por ser virgem nas mesmas não tinha na altura essa noção apesar de a dimensão ter em muito ultrapassado as minhas expectativas (esperava quando muito 5 mil ou 10 mil pessoas).

Já quanto ao civismo sou testemunha de que tudo correu sem incidentes e que mesmo tendo havido tentativas no sentido de pôr a multidão a gritar contra Sócrates ou o governo, a maioria esmagadora teve o bom senso de saber que não era parra isso que ali estávamos, aliás a passar-se o contrário teria abandonado imediatamente a manifestação, até porque não é novidade para ninguém (de quem vai seguindo o que escrevo online e o que digo no mundo real) que desde as últimas eleições apoio o actual Primeiro Ministro, sem medo das boquinhas mais ou menos foleiras ou de outras consequências que levam os milhões que votaram PS a manterem-se incógnitos nas suas vidas quotidianas. O que se calhar nunca referi (pois ainda não escrevia regularmente online) é que não votei Sócrates na primeira legislatura, aliás até 2009 era votante do Bloco de Esquerda... e as razões para mudar foram tanto o aumento dos meus conhecimentos políticos, como o afastamento da incoerência e irresponsabilidade de um partido que diz que não que ser governo, só oposição.

Mas voltando ao importante, repetiram-se nos media e blogues tentativas de descredibilizar a manifestação quer em número, quer insinuando que a mesma partiu dos partidos da esquerda mais rígida. Os números são discutíveis, basta sabermos que foi muito maior que se esperava e maior que as manifestações sindicais, mas tentar colar a mesma ao BE e ao PCP não é mais que distorcer a realidade e perder objetividade... até porque a única força que aproveitou politicamente a manifestação foi o PSD, quer através do discurso de tomada de posse de Cavaco Silva, quer durante a mesma, pela mão da JSD (sem qualquer identificação) que distribuiu uma mensagem política camuflada numa nota falsa de 500€ com a cara de Sócrates.

Outro dos comentários mais ouvidos foi direcionado à ausência de resultados práticos desta manifestação... a isto só posso responder que o resultado mínimo expectável foi conseguido antes da mesma, a situação da precariedade dos jovens e menos jovens nunca foi tão falada nos media e na praça pública. Até há muito pouco tempo quase nunca se via uma reportagem ou um comentário sobre falsos recibos verdes e estágios não-remunerados, alias se calhar muitos portugueses nem sabiam o que estes termos significavam. Nas últimas semanas não se fala de outra coisa em Portugal, finalmente o problema saiu debaixo da peneira e isso foi já uma grande vitória só por si.

Mais, temos e vamos assistir mais a várias iniciativas que apesar de tímidas e de efeitos pouco certos, são positivas, como a proibição dos estágios não-remunerados (que já eram ilegais por omissão legislativa) ou o aumento de casos detectados por parte da Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT), com a mudança do presidente desta instituição. Não nos enganemos, isto não chega e mais há para fazer, na minha óptica apostando mais na fiscalização e na melhoria radical do funcionamento dos Tribunais do Trabalho. E vamos descobrindo a agenda do PSD, demonstrada nas medidas que sugeriram ultimamente para "resolver" a precariedade, desde o contrato de trabalho temporário verbal (se isto não significa trabalho a soldo não sei o que é), até ao fim da renovação automática dos mesmos contratos, só para citar duas pérolas.

Mas talvez o mais importante de tudo tenha sido o despertar dos políticos para o afastamento cada vez maior entre a sociedade civil cada vez mais individualista e aberta e os partidos que continuam a ser estruturas relativamente fechadas e extremamente dependentes de uma hierarquização. É extremamente positivo ver Francisco Assis e Morais Sarmento (no programa Contrastes desta semana na SIC Notícias) com a perfeita noção do verdadeiro significado e importância da manifestação de 12 de Março... o primeiro passo para a mudança é sabermos o que está errado.

o rendimento mínimo



Sinceramente, não sou muito dado a conferir excessiva atenção às demagogias que a direita vai veiculando através dos media, de forma a defender o seu belo sistema (bela merda na minha opinião), mais ou menos liberal mas sempre socialmente irresponsável e às vezes até mesmo malicioso.

Infelizmente, com a subida do CDS-PP nas eleições legislativas, o eterno maquinista Paulo Portas já fumegava com outra potência e decidiu durante as autárquicas, fazer um ataque sem reservas ao Rendimento Social de Inserção (rendimento mínimo), apoiado num artigo do isento e sério Correio da Manhã, que noticiava uma estimativa de que as fraudes do RSI ascendessem a 118 milhões € (isto quando a fonte mais fidedigna, a Segurança Social, fala em cerca de 14,7 milhões em ano e meio). Mais, diz portas que se fosse governo tirava o dinheiro aos fraudulentos (descobrindo quem são através do método do "um-dó-li-tá") e usá-lo-ia para aumentar as reformas dos idosos (os únicos "pobres" que votam nele), o que significaria um aumento de 10€ em cada reforma!

Como disse ao inicio, não tenho hábito de perder tempo com palhaçadas deste nível mas vejo cada vez mais pessoas que pensei de bom senso ou pelo menos avessas às ideias de extrema-direita, muito revoltadas com não só as fraudes mas com o subsídio em si. Os argumentos de Portas ficam na orelha, principalmente aquele que refere que os beneficiários são malvados e preguiçosos, que vivem às custas dos portugueses que trabalham...

Claro, que se retira premeditadamente da equação, o facto da média deste subsídio ser de 90€. Ou então o senhor Portas, com o seu apartamento "colorástico", com a sua colecção de invejável de livros (digo-o como elogio) e gosto careiro de almoçar sushi, afirma ser possível sobreviver desafogadamente e ociosamente um mês com este dinheiro (aos preços do restaurante que ele frequenta ou pede take-out, dava para 5 almoços).

Mas voltando ao cerne da questão, gostaria de lhe perguntar a ele e aos portugueses que estão obcecados com as supostas fraudes do RSI, se já fez as contas para saber quanto aumento de reformas é que seria possível pagar, com os entre 10 e 14 MIL MILHÕES DE EUROS nos quais estão estimados os valores da fuga ao fisco, todos os anos?!

Como Guterres dizia "é só fazer as contas"...

Para ajudar a perceber melhor a dimensão que separa estes dois factores (ambos negativos e nisso concordo) fiz o gráfico acima deste post para ilustrar visualmente a diferença das suas dimensões e consequentemente da sua importância. E até fui simpático, porque usei o valor hiperbólico de 180 milhões € para o RSI (acredito mais nos valores oficiais porque sei na pele, o difícil que é ter apoio da Seg. Social) e comparei com o valor mais baixo da fuga ao fisco. Se tivesse usado o valor oficial das fraudes ao RSI, mesmo mantendo os 100 mil milhões €, a barra do RSI seria um risco sem visibilidade.

Parece-me uma prova das prioridades trocadas da direita e infelizmente de muitos meus compatriotas que foram hipnotizados pelo canto da sereia, sem pensar para lá dos sound-bites. É claro, que para a direita é muito mais fácil atacar a parte mais fraca, os pobres desgraçados que têm de recorrer ao RSI, não têm geniais contabilistas, offshores à escolha e advogados maravilha para lhes garantir as falcatruas e assim o contribuinte português fica todo contente que a bandeira azul com o falo amarelo (a laranja está com bicho), lá lhes conservou melhor o dinheiro dos suados impostos.

Mas nada que espante quem vê o neo-liberalismo por aquilo que é, um feudalismo do capital em que quem tem dinheiro pode, quer e manda e onde o estado serve para controlar e reprimir as classes baixas privadas da recompensa justa da sua produção.

Penso que qualquer pessoa com bom senso condena qualquer tipo de fraude, mas fazer deste caso uma prioridade quando temos milhares de milhões de euros que não são cobrados em impostos, é no mínimo hipocrisia e no máximo crueldade, tendo em conta a quantia irrisória que poderá estar a ser desviada por cada "criminoso" e a situação social dos mesmos.

Só consigo encontrar explicação para esta situação desproporcionada, se for extremamente negativo e culpar a inveja profunda do português em relação ao que o próximo tem (mesmo que sejam tostões) e o ignorar da fuga ao fisco por ânsia de fugir também ao pagamento dos impostos. Se for este o caso está explicada o nosso fosso em relação aos resultados económicos e sociais de países nórdicos, onde o pagamento dos impostos é considerado uma obrigação e a fuga é muito mal vista (aliás toda a corrupção e nepotismo), para um país onde o chico-esperto é o herói da tasca ou do café e exemplo de superior inteligência (esperteza).

Acho que temos de aprender a ser mais solidários, éticos, cívicos, cumpridores e aprender que o dinheiro e os bens materiais são um meio e não um fim e como tal de nada servem com mal-estar social e um estado sem recursos.

Fontes:
Agência Financeira (IOL)
Jornal de Negócios

PS: Peço desculpa pelo testamento mas precisava de deitar tudo para fora...

BlogConf inteira



O vídeo completo e sem cortes da BlogConf, se tiverem 3 horas para aprender o que é ser político profissional...

BlogConf



fonte > http://twitpic.com/photos/rgrilo


Antes de mais tenho pena de não poder dar os meus parabéns a toda a organização da primeira BlogConf que se realizou ontem na cantina da LXFactory em Lisboa, com o actual Primeiro-Ministro e candidato a novo mandato, José Sócrates. Não posso porque considero uma grande falha, a não transmissão ao vivo desta conferência como prometido, injustificável dadas as 3h e 40m que me parecem suficientes para resolver qualquer eventual problema técnico, ou pelo menos para arranjar uma alternativa para os twitters e outros seguirem a mesma, nem que de forma resumida.

O mais grave é a "twittosfera" de direita ter aproveitado esta falha para a estratégia já gasta de "soundbites" ou usando o termo mais nacional "bitaites", apontar esta falha ao PS e a JS a quem (não entendo como) a organização desta BlogConf foi conotada. Esta conferência não está em nenhum lado atribuída ao PS e tem como objectivo claro estender-se a todos os líderes políticos que concorrem a estas legislativas. Claro que já estamos todos (quem pensa com a sua cabeça e não com ideias feitas e jardinismos bacocos) mais que habituados a que a mínima centelha negativa com o nome de José Sócrates misturado, se transforma num fogo descontrolado... são dignos herdeiros do incendiário grego Heródoto.

Mas voltando ao que interessa, foram hoje disponibilizados os vídeos da mesma através do SAPO e para nos facilitar a vida o Ricardo Martins colocou a lista de vídeos por ordem cronológica no seu Troca o Passo.

Para os mais distraídos convém lembrar que a BlogConf, juntou 20 bloggers que se inscreveram para o efeito para colocarem perguntas a JS. E durante 3h e 40m foi isso que se passou, um diálogo saudável entre um político profissional e cidadãos das mais variadas orientações políticas, alguns que apoiam este governo e outros que podem ser justamente e sem remorsos, designados por "lojistas de política dos 300". Ainda assim tudo decorreu dentro de um clima de boa disposição e respeito, nada que se pareça com o "forrobodó" de manha, agressividade e ordinarice, que têm sido os debates quinzenais na Assembleia da República, inaugurados por este governo.

José Sócrates confirma mais uma vez uma capacidade dialética e preparação que não são de todo comuns entre a classe política nacional, com apenas uma folha A4 na frente e apoio esporádico dos assessores, respondeu de forma elegante e confiante a todas as perguntas, mostrando mais uma vez que faz os trabalhos de casa em vez de usar frases feitas e empregar estratégias políticas corriqueiras. Mais do que o charme que alguns twitters lhe foram atribuindo, penso que a palavra mais correcta para designar esta capacidade num político ou dirigente, é carisma... qualidade rara e que se pedia existir em todas as cores políticas, pelo menos por quem deseja a variedade política no nosso país, como algo que contribui para a melhoria da sociedade.

Importa também frisar que nestas respostas tivemos algo ainda menos comum, humor no debate político. Digo honestamente que me ri a bom rir várias vezes enquanto assistia às diferentes intervenções, com ponto alto na resposta a uma pergunta relativa às obras públicas... "devemos apostar mais em pequenas obras públicas, como as rotundas?! Voltámos à política das rotundas?"

A única altura em que houve problemas foi com a intervenção de Tiago Ramalho, do Afilhado e Jamais que tentou fazer uma chico-espertice ao falar de números estatísticos presentes na imprensa, citados de outro blogger afiliado ao PSD, sem ter a decência de fornecer os mesmos números e a fonte, para que fossem analisados e se tentasse responder de forma clara... números que mostravam uma confusão qualquer ao misturar o plano de avaliações da Função Pública, relativo aos funcionários não docentes do Ministério da Educação e a avaliação dos professores que corresponde a outro modelo, cujos dados não podem surgir misturados em nenhuma estatística. Ou seja, a velha manha que o PSD tem usado nos últimos anos, de lançar suspeitas para o ar, não importando a veracidade das mesmas... isto por parte dos auto-proclamados donos da verdade política em Portugal!

Houve pontos muito positivos que penso que darão frutos, em relação à melhoria da segurança online para as crianças e jovens abrangidos pelos programas e-Escolinhas e e-Escolas sugestão de Tito Morais, o alerta de Ana Martins para os cidadãos portadores de deficiência, em especial para o problema do autismo e o assumido chumbo do nuclear em favor da energias renováveis, em resposta à questão de Raquel Silva. Foi referida a intenção programática de criar um subsídio de desemprego para os jovens desempregados, um subsídio social para famílias trabalhadoras, que não reunem rendimentos que as coloquem acima do limiar de pobreza e outras que não me interessa referir, pois não sou nenhum "delegado de propaganda eleitoral".

Em conclusão, considero esta primeira BlogConf extremamente positiva e mais esclarecedora que os debates políticos desta campanha legislativa serão e é por isso que quero deixar aqui a minha expressa vontade para que esta conferência seja alargada a TODOS os líderes partidários e de movimentos que concorrem a estas eleições.

Estou extremamente curioso de ver uma prestação de Manuela Ferreira Leite, aliás estou à espera de perceber melhor as ideias desta, apesar de ter reticências a "arautos da verdade" e adeptos de "suspensões de democracia", que ainda por cima podem ser metaforicamente combinados numa Fátima do século XXI, que vem trazer a verdade aos fiéis portugueses. Percebo o desespero dos simpatizantes do PSD em criticar venenosamente e difamar esta organização por uma falha técnica, atitude justificada por um pânico motivado pela falta de confiança que têm na sua líder. Não se preocupem, Ferreira Leite se quiser terá uma boa prestação, que seja esclarecedora dos seus argumentos, ideias e ideais! Mas talvez seja esse o medo...

declaração de intenções

Como o prometido é devido, nada como aproveitar a BlogConf que decorreu ontem na LXFactory, para inaugurar no emoglobina o exercício de opinião política. E tirando a deixa de algumas intervenções feitas ontem, talvez seja positivo deixar desde já a minha própria Declaração de Intenções, de forma a terem de antemão a noção da cor política que defenderei nos próximos tempos.

Tenho sempre alguma reticência em revelar as minhas cores políticas, não por medo de represálias profissionais ou pessoais, como o que aflige as dezenas de anónimos que aproveitaram a minha denúncia da situação de "burla laboral", não dando a cara pela defesa dos seus direitos, mas mais pela paciência em lidar com uma sociedade que em pleno século XXI ainda se move por estereótipos e ideias feitas em relação a tudo, mas mais especialmente a algumas orientações políticas.

Já aqui deixei depreender que sou um defensor da anarquia, evito dizê-lo aos sete ventos pois aposto que neste momento, há muitos que acabam de formular o juízo de que sou pelo caos e desordem, características que a educação de massas quer colar a esta filosofia politica. Talvez fosse bom lembrar-vos que existem dezenas de "anarquias", sendo que algumas defendem a violência e a destruição do actual "sistema" como o anarco-terrorismo, havendo outras até que são amigas do neo-liberalismo (mais conhecido cá como direita liberal), ou melhor, estão na sua base como o anarco-capitalismo. Também existe anarquia de extrema esquerda, exemplo do anarco-sindicalismo.

Quem quiser saber mais sobre cada uma pode consultar a web ou ler o excelente "manual" que é a História do Anarquismo de Jean Proposiet editado no ano passado pela Edições 70.

Quanto a mim e ainda antes de ter um conhecimento mais elaborado das correntes filosóficas anarquistas, sempre me considerei um "moderado", estando muito próximo das concepções de anarco-socialismo de Proudhon, um dos primeiros anarquistas assumidos e autor do excelente O que é a Propriedade?

Esclarecido este ponto posso avançar que como qualquer anarquista moderado não acredito em "revoluções explosivas" mas sim no continuado abrir de mentes através da troca de argumentos e como tal desde sempre me considerei um cidadão pleno da República Portuguesa, com direitos e deveres. Assim desde que tenho o privilégio de exercer o meu direito de voto, o meu historial político esteve sempre no apoio ao Bloco de Equerda.

No entanto, ao longo dos últimos 4 anos as decisões políticas do Bloco afastarem-me progressivamente a vontade de continuar esse apoio, tendo esse afastamento sido agravado nos últimos meses com o afastamento de Sá Fernandes, apenas porque este passou a fazer parte do "poder" em vez de ser apenas do contra, tendo esta "pulsão"bloquista tornado-se clara com sucessivas declarações que mostram a não disponibilidade do Bloco de Esquerda ser governo, mesmo na (já não tanto) remota hipótese de reunir votos suficientes. O meu voto não é do contra, é sempre a favor de algo...

Ao mesmo tempo e apesar de como já disse não ter votado neste governo, a minha admiração por José Sócrates cresceu gradualmente e ainda mais exponencialmente com cada ataque político baixo desferido, com o grande auxílio dos media portugueses, que escuso de lembrar estarem na sua esmagadora maioria nas mão de assumidos simpatizantes da direita do nosso país (escuso falar de violadores(as) do Código Deontológico do Jornalismo que continuam impunes a acções da ordem).

Este meu apoio crescente e sem vergonhas já me brindou, com a boca foleira de uma ex-colega de trabalho que me acusou de "querer ir para a cama com o Sócrates", uma verdadeira pérola da infantilidade da parte de alguém que não vai votar, porque "eles são todos iguais" e que confrontada com as dezenas de escolhas entre partidos e movimentos cívicos, remata com o "não tenho tempo para andar a descobrir em quem vou votar".

Por isso, fica aqui bem claro o meu apoio a José Sócrates, que obviamente tornar-se-á claro em futuras intervenções neste blog. E atenção, voto em Sócrates e não no PS, porque para mim o que conta são as provas dadas e os argumentos apresentados, ainda mais por alguém que tem uma capacidade dialética raramente vista no nosso anoréctico cenário político.